quarta-feira, 30 de julho de 2014

Sobre saudade e vômito

Virose é que nem saudade. Você não vê. E te fode.

O corpo estava todo dolorido, não dolorido deixa eu pegar uma xícara de chá e assistir The Big Bang Theory, dolorido deixa eu dar um chute no teu rabo. O telefone que eu quebrei quando algo quebrou aqui dentro (seriam as algemas de pelúcia?), não pode mais me distrair. Lembro dos olhos de jabuticaba dela e do cheirinho dela. Da voz, da língua grande que já foi presa, lembro de todos os nossos segredinhos. O estômago dá um duplo twist carpado. Lá vem.

E suja a roupa, o lençol, o chão. Alguém limpa meus sapatos e eu fico profundamente agradecida por isso. Eu podia trepar contigo agora, sabia? Se eu não fosse vo... mais uma vez. Durante é muito ruim, será que cheirar é assim? Mas depois até que vem uma onda legal. Como se as coisas fossem dar certo. Inevitável não lembrar dela. Dos mil beijinhos, dos braços magros. "Você agora usa soutien, é?". A gente ficou deitada. Todo o meu amor não me completa, eu preciso de você também. Eu preciso que você seja feliz, menina.

O elevador abriu, o Adonai saiu correndo e eu, que estava mastigando o ar de ansiedade, dá para olhar antes dos olhos? Eu, que estava com o coração aos pulos, eu, que lido tão mal com a falta, eu vi. Quase do meu tamanho, os olhinhos rindo. Os pés que quase não tocavam o chão. Desde quando você aprendeu a flutuar? Um abraço apertado. Eu te reconheço, te reconheceria mesmo que passassem cem anos. Há lugares intocados, nossa história que é viva e não morre por conta do hoje. Não há capricho, ciúme ou egoísmo que acabe com o que a gente viveu. Não existe distância que apague, esqueça ou "deixe para lá", todos os nossos momentos juntas.

A última vez foi de leve, e de levinho me levou. O rosto amistoso do médico de sotaque engraçado foi ficando longe. Uma mão forte me segurava, uma voz chamava. Eu estava num desenho de mar. Sabe quando as crianças fazem aquelas ondinhas azuis? Eu fui navegando como se estivesse num navio mas era só o meu corpo. Uma baleia fez shuuuuu e ela estava lá. Me deu um sorriso. Disse para eu esperar mais um pouquinho, que a virose estava indo embora. E que ela, a boneca, sem demorar tanto, estaria de volta.

quinta-feira, 24 de abril de 2014

Juliana

Na primeira vez ela estava em pé em cima da cama. Alheia aos fios que a cercavam ou a "acercavam", vai saber. Ela chamava quem passasse na sua frente. Me assustei com aquele jeitão, parecia que me conhecia. Ela me ultrapassava, como se soubesse o que eu iria dizer. Virava as páginas antes que eu terminasse de ler, devorava as figuras com os olhos. "É que eu não tenho muito tempo". Eu não sabia.

Juliana tinha os dois olhos pretinhos pretinhos. Dificilmente ria. Sempre dava ordens, queria saber tudo, tudo o que podia saber dali, daquele pedacinho, que ela dominava como ninguém. As respostas eram sempre diretas e curtas. Gosta disso? Não. Gosta daquilo? Não. Acha o Tiago bonito? Não. Quer ser minha mamãe? Como? Vai fazer mamá pra mim? Mas eu não sei fazer!

Quando os nossos livros acabavam, antes mesmo da última página ela pedia "outro", mais para não perder a companhia do que pela leitura, é que ela não tem tempo, ela não sabe mas sente. Eu ali já sabia mas não sentia. Somos amigas?

Queria saber tudo. Passamos a dividir coisinhas, na verdade, sempre foi muito mais importante para mim do que eu para ela. Ela sabia que não deveria se apegar. Passei a falar dela durante a semana, imaginava joguinhos para diverti-la, buscava livros com imagens divertidas. Ela gostava de ver, eu gostava de vê-la ver. Eu gostava dela.

Nos últimos dias ela estava mais quietinha, menos altiva. Mesmo assim me quis perto, mesmo assim quis a companhia. Enfim me apresentei Meu nome é Vivi. "Vivi, não vai embora." Não vou. A respiração fraquinha, combinamos de conversar depois. Vai dar tempo? Um abraço de longe, mandei beijos que ela guardou no coração, jogou outros que agarrei no ar e guardei comigo. Um sorriso, um dos únicos sorrisos, e enfim virou a criança que era, que só se revelava quando falava baixinho "mamãe". A mãe se fingia durona mas seus olhos nunca seriam duros. É que mãe é macio demais.

Cheguei pensando nela, como sempre. A cama estava vazia. Vazia das cores, da voz grossa e mais ainda, vazia do sofrer que só se esquecia quando se lembrava criança. Não tinha mais rir do seu mal humor, rir para arrancar sorriso, rir para não chorar. Não tinha mais Juliana. Não tinha. Mais Juliana. Mais Juliana na praia, no parque, onde ela quiser ir. Mais Juliana brincando com cachorro, comendo sorvete. Mais Juliana dançando, pulando. Mais Juliana aonde o pensamento a levar. Livre. Mais Juliana aqui dentro. Pra sempre.

quinta-feira, 13 de março de 2014

Baby, I'm so alone. Vamos pra Babylon.

Eu tinha o que, uns dezesseis anos. Aí eu escutava uma música e achava que o mundo estava se mostrando para mim. Desezzeis anos e começando a entender o mundo. Tocando duas punhetas por dia, ouvindo Beatles, achando que rock brasil anos 80 era uma grande merda e que elas... as meninas... um mistério.

Ela sabia que mexia comigo. Ela sabe que hoje, trintão de barba por fazer. ainda mexe. Com dezesseis ela pediu: Vamos fugir? Eu não quis. Porque tinha leite na geladeira e o meu cachorro só comia quando eu botava e nossa, tinha tanta menina e eu ainda estava com paciência para caralho! Eu podia sei lá, contar as folhas de grama do maracanã e ia sobrar energia.

Aí o Botafogo foi piorando, as coisas na minha cabeça começaram a machucar de dentro pra fora. Ganhar dinheiro não tem sido suficiente. As meninas passaram a achar minha literatura boba. O cinema não encanta e envelhecer é quase emburrecer.

Vamos fugir. Vou fugir. Vamos fugir. Ela poderia ainda queria. Vamos? Misturar tempos? Vamos voltar para quando a avalanche era floco? Vamos? Uma carta? Uma mensagem no whatsapp? Aí ela lê e responde:

"tô colocando o neném para golfar, vamos o que?"


terça-feira, 28 de janeiro de 2014

sobre a dor

É amarelinha. Porque amarelo é a cor da inflamação, do pus? Pode ser. Não sei. Mas a minha é amarela. São pontos amarelos invisíveis que ora estão pequenos, ora estão grandes. E doem. E reverberam a sua volta. Quase falam: "Menina, você andou sendo tão ruim ultimamente". E eu pergunto: -E o Osama Bin Laden, e o George Bush, e aqueles caras que estupram covarde-coletivamente na Índia? Por que vocês não vão atrás deles?

E eles respondem:

- Porque você é fácil demais, boba demais, sensível e sonhadora. Porque você treme só de pensar na gente. Porque a sua barriga que não dobra quando você senta é linda.

Aí eu olho para os braços, eles, que já foram a solução a curto prazo mas a longo prazo não funcionam, poderiam sangrar rapidinho. Toda menina sabe que para fazer parar de doer de um lado só doendo mais fundo do outro. Toda menina. Mulher "guenta".

É maré. Vai e vem. As ressacas me fodem por muitos dias. (E o Tiago não gosta quando fala palavrão... alguém diz para ele que escrevendo tudo pode. E que ele é remédio de tarja multicolorida.). Quando vem tremem tudo aqui dentro, quando vão sabe-se que voltam. E tomam. And drive me crazy.

Mas você não ia ser escritora?

E eu lá tenho talento? Só quero me livrar de tudo isso, ter uma cacetada de filhos e morrer deixando saudade neles.










quarta-feira, 13 de novembro de 2013

galeria condor

havia uma força diferente de tudo até então visto. veja bem, não estamos falando de peso de academia, de conta para pagar, de festa friday night. estamos falando daquilo que a gente não sabe o nome mas sabe bem o que é, do que se sente quando a literatura acaba, a cama está dolorosamente desconfortável e ainda falta muito para amanhecer. 

havia um quadro, um quadro igual, um quadro já visto. sentamos. ela perguntou como havia sido a semana e reparei que o brinco era diferente embora não parecesse novo. o cheiro era bom e me dava vontade de dormir, de escrever, tudo menos falar. 

fale, viviane, arranque a sua língua da boca e põe pra fora. sem língua, sem palavras, pode ser só som. 

eu não consigo esquecer um monte de coisa.

vamos começar a ser gente grande?

gente grande não esquece, gente grande é ser feliz mesmo assim.

sábado, 29 de setembro de 2012

O fim do mundo


       Eu sabia. E ninguém mais sabia. Dia e hora. E porque se sabe, ah, isso eu nunca soube. Tem coisa que é assim, aparece do nada igual notícia boa. Acordei e veio. Como quem vai se acostumando com a luz depois de muito tempo no escuro. Pupilas retraídas e claro. Não posso negar, sim, passou da hora, mas é aquele tipo de coisa que parece que nunca vai. Foi. Então é isso mesmo? 
       A saudade rasgando. Na boca, no peito, na boca do estômago. Rasga de deixar fiapo. Eu senti, doeu. Sentei, escrevi. Você não veio na sexta. Era só mais uma sexta e eu ainda lembrava aquelas outras que a gente chegava a casa e se jogava na cama, meio sem jeito até se ajeitar. O quartinho, ele virava mais um e éramos três quando estávamos lá, configurava tempo-espaço de outra forma. Às vezes se apertava até a gente entrar um no outro, por outras se dilatava e eu te perdia de vista. Tinha os dias que o tempo não passava, a gente nem sentia fome, e os tantos outros que o relógio nos empurrava para fora dali. 
       Vi, ando vendo o que eles não veem. As pessoas, sim, tirando nós tem um monte delas, não sabem. E porque deveriam saber? Vão e vem, correm para pagar as contas, para beber a cerveja do final do dia,  carregam seus sonhos bem presos entre os dedos. Os dedos, quando seus, entram, apertam, esfregam até quase doer, e eu, eu enlouqueço. 
          Tem dia, logo pela manhã faz um silêncio parado, como se tudo estivesse morto. E aí vem uma, como posso dizer, uma onda. Me leva, eu aperto as unhas dentro das mãos, machuca um pouco. Os olhos arregalados, mesmo no escuro, se abrem, como se fossem comer alguma coisa. E quando enfim volto a mim está tudo nítido. Acho que isso é o que os índios chamam de "ver". Eu vejo. E sem o peyote, sem mescalito, sem cogumelo. Vejo e demoro uns dias para esquecer. Nessa mania de querer enxergar o lado que você não mostra.
          Sinto um perfume doce entrar pela janela, o dia morno engolindo lá fora e eu aqui, com a descoberta apertando a garganta. Um nó, o telefone não toca há dias. Com saudade e ligeiramente magoada como as mulheres costumam ficar. O cachorro vem me lamber os pés, alheio ao futuro que não nos espera: "É hoje, hoje acaba". Coisa dada, inevitável. E “tu reclamava” da minha mania de desviar, é que se encaro, você descobre: "Eu gosto mais de você do que dele". Sussurrei tão baixo que nem ouvi. Teu sono leve, as costas lisas e quentes, o braço formigando e eu nem me incomodava de ouvir o teu serra-maxilar a noite toda. Só um menino ainda, penso que homem de verdade não deve sofrer de bruxismo. Tá na hora.
       Subi a Rua das Laranjeiras correndo, enquanto tudo ia derretendo. As cores primeiro, os prédios, as roupas ficando cinza. Depois das cores as bordas iam se misturando, turvas, encolhendo até virar nada. As pessoas por último, assustadas, conformadas. No fundo a gente sabe que uma hora vai acontecer. Aconteceu, dentro da nossa cabeça, no começo, quando eu me perdia na pintinha que você tem na nuca e demorava em me achar. O cabelo preto e bagunçado, a pele branca, a barba que nunca via gillete e o beijo que fez o trânsito parar.
      Como nos sonhos, como nos filmes, não tinha mais ninguém na rua, só eu. As casas como que mal assombradas, nem os gatos de rua resistem ao frio da madrugada do Cosme Velho. O Cristo está pertinho mas eu nem levanto a cabeça para buscar alguma bênção. Estou com pressa. Você ainda assiste Seinfeld de madrugada? Bati na porta duas vezes, você abriu assustado. e o mundo. acabou. no. seu. pescoço. 


  

sábado, 24 de março de 2012

convulsão

cem ou duzentos anos milhões sei lá nem parece que vale tanto e rachadura cristal quebrado é gozado como as coisas mudam assim de um minuto para o outro casa sujeira parece que não dá tempo para nada o tempo ali se configura de outra forma você escolhe como que as coisas vão se ajeitar rapaz eu poderia te amar para sempre se você deixasse isso muda também não é culpa sua tem sido assim comigo eu entendo essa sua mania de querer coisas novas todo ano mês eu entendo você procurar por alguma moça mais rasa rasinha ficar aqui embaixo comigo sufoca dá vontade é eu sei que você é o tipo do cara que precisa de ar puxar forte e mirar o horizonte aqui no meu apartamento tem muita parede móveis tem a cristaleira com o cristal que eu quebrei agora pouco e todos os outros que estão por um fio por um fio de ar para se partirem e tem essas construções e prédios pitorescos que fingem serem bons para morar ah já se foi o tempo deles vila isabel tem sido aprisionador e quente como o nosso último encontro eu não consigo mais ficar parada poderia correr para caralho na esteira na ladeira na bicicleta na água sim eu poderia e seria bom seria ficar mais perto entende será que você entende mesmo mesmo lembro daquele dia que você me fez suco de abacaxi com hortelã e nossa estava tão ruim é faltava muito para você ser bom bom de verdade no que você achava que era mas esse quase lá essa promessa que nunca se concretizaria nossa isso me enlouquecia eu queria mais mais assim como as suas costas perfeitas de cara que levanta peso contrastando com as suas pernas finas pedalando para o paraíso o vento batendo nas minha cara isso sim é não pensar em nada esperar é uma merda porque é uma hora vem sabe ficar nesse vão do tempo é tão ruim
aí me puxa puuuuuxa se contorce essas coisas bobas tolas todas elas vão sair ao mesmo tempo e não vai sobrar nada é não sobra nada foi sem querer foi