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Boa Sorte

Sinto, Vovô, ainda sinto tanto. Sua falta, seu cheiro, sinto como se você não estivesse aqui. E de fato não está, estará? Esses cheiros etílicos, esses brancos que muito brancos, essas moças que mal saíram da faculdade e acham que podem te cuidar. Logo o senhor, tão complexo, logo o senhor que nem nos meus quase 30 anos, pude dar conta de abarcar.      Elas não sabem que já fora campeão de atletismo, que já nadara no Rio Tietê quando ainda era limpo. Não sabem que deixara uma fila de mulheres apaixonadas quando escolhera Vovó. Não sabem do seu talento para descascar camarão ou como, em quase 80 anos, fora muito pobre, quase rico e pobre de novo.      Sinto ter que vir aqui e olhar o senhor assim, esse sobe e desce de maca, esses exames que te reviram por dentro sem contar nada de novo. É pulmão, é rim, que mais? Eles não sabem que o senhor é diferente, que jamais concordaria com tudo isso. Ah, se eles soubessem que crescera numa casa de quintal grande, que corria para lá e para cá …
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Sobre saudade e vômito

Virose é que nem saudade. Você não vê. E te fode.

O corpo estava todo dolorido, não dolorido deixa eu pegar uma xícara de chá e assistir The Big Bang Theory, dolorido deixa eu dar um chute no teu rabo. O telefone que eu quebrei quando algo quebrou aqui dentro (seriam as algemas de pelúcia?), não pode mais me distrair. Lembro dos olhos de jabuticaba dela e do cheirinho dela. Da voz, da língua grande que já foi presa, lembro de todos os nossos segredinhos. O estômago dá um duplo twist carpado. Lá vem.

E suja a roupa, o lençol, o chão. Alguém limpa meus sapatos e eu fico profundamente agradecida por isso. Eu podia trepar contigo agora, sabia? Se eu não fosse vo... mais uma vez. Durante é muito ruim, será que cheirar é assim? Mas depois até que vem uma onda legal. Como se as coisas fossem dar certo. Inevitável não lembrar dela. Dos mil beijinhos, dos braços magros. "Você agora usa soutien, é?". A gente ficou deitada. Todo o meu amor não me completa, eu preciso de você também. E…

Juliana

Na primeira vez ela estava em pé em cima da cama. Alheia aos fios que a cercavam ou a "acercavam", vai saber. Ela chamava quem passasse na sua frente. Me assustei com aquele jeitão, parecia que me conhecia. Ela me ultrapassava, como se soubesse o que eu iria dizer. Virava as páginas antes que eu terminasse de ler, devorava as figuras com os olhos. "É que eu não tenho muito tempo". Eu não sabia.

Juliana tinha os dois olhos pretinhos pretinhos. Dificilmente ria. Sempre dava ordens, queria saber tudo, tudo o que podia saber dali, daquele pedacinho, que ela dominava como ninguém. As respostas eram sempre diretas e curtas. Gosta disso? Não. Gosta daquilo? Não. Acha o Tiago bonito? Não. Quer ser minha mamãe? Como? Vai fazer mamá pra mim? Mas eu não sei fazer!

Quando os nossos livros acabavam, antes mesmo da última página ela pedia "outro", mais para não perder a companhia do que pela leitura, é que ela não tem tempo, ela não sabe mas sente. Eu ali já sabia mas …

Baby, I'm so alone. Vamos pra Babylon.

Eu tinha o que, uns dezesseis anos. Aí eu escutava uma música e achava que o mundo estava se mostrando para mim. Desezzeis anos e começando a entender o mundo. Tocando duas punhetas por dia, ouvindo Beatles, achando que rock brasil anos 80 era uma grande merda e que elas... as meninas... um mistério.

Ela sabia que mexia comigo. Ela sabe que hoje, trintão de barba por fazer. ainda mexe. Com dezesseis ela pediu: Vamos fugir? Eu não quis. Porque tinha leite na geladeira e o meu cachorro só comia quando eu botava e nossa, tinha tanta menina e eu ainda estava com paciência para caralho! Eu podia sei lá, contar as folhas de grama do maracanã e ia sobrar energia.

Aí o Botafogo foi piorando, as coisas na minha cabeça começaram a machucar de dentro pra fora. Ganhar dinheiro não tem sido suficiente. As meninas passaram a achar minha literatura boba. O cinema não encanta e envelhecer é quase emburrecer.

Vamos fugir. Vou fugir. Vamos fugir. Ela poderia ainda queria. Vamos? Misturar tempos? Vamos…

sobre a dor

É amarelinha. Porque amarelo é a cor da inflamação, do pus? Pode ser. Não sei. Mas a minha é amarela. São pontos amarelos invisíveis que ora estão pequenos, ora estão grandes. E doem. E reverberam a sua volta. Quase falam: "Menina, você andou sendo tão ruim ultimamente". E eu pergunto: -E o Osama Bin Laden, e o George Bush, e aqueles caras que estupram covarde-coletivamente na Índia? Por que vocês não vão atrás deles?

E eles respondem:

- Porque você é fácil demais, boba demais, sensível e sonhadora. Porque você treme só de pensar na gente. Porque a sua barriga que não dobra quando você senta é linda.

Aí eu olho para os braços, eles, que já foram a solução a curto prazo mas a longo prazo não funcionam, poderiam sangrar rapidinho. Toda menina sabe que para fazer parar de doer de um lado só doendo mais fundo do outro. Toda menina. Mulher "guenta".

É maré. Vai e vem. As ressacas me fodem por muitos dias. (E o Tiago não gosta quando fala palavrão... alguém diz para ele…

galeria condor

havia uma força diferente de tudo até então visto. veja bem, não estamos falando de peso de academia, de conta para pagar, de festa friday night. estamos falando daquilo que a gente não sabe o nome mas sabe bem o que é, do que se sente quando a literatura acaba, a cama está dolorosamente desconfortável e ainda falta muito para amanhecer. 
havia um quadro, um quadro igual, um quadro já visto. sentamos. ela perguntou como havia sido a semana e reparei que o brinco era diferente embora não parecesse novo. o cheiro era bom e me dava vontade de dormir, de escrever, tudo menos falar. 
fale, viviane, arranque a sua língua da boca e põe pra fora. sem língua, sem palavras, pode ser só som. 
eu não consigo esquecer um monte de coisa.
vamos começar a ser gente grande?
gente grande não esquece, gente grande é ser feliz mesmo assim.

O fim do mundo

Eu sabia. E ninguém mais sabia. Dia e hora. E porque se sabe, ah, isso eu nunca soube. Tem coisa que é assim, aparece do nada igual notícia boa. Acordei e veio. Como quem vai se acostumando com a luz depois de muito tempo no escuro. Pupilas retraídas e claro. Não posso negar, sim, passou da hora, mas é aquele tipo de coisa que parece que nunca vai. Foi. Então é isso mesmo?         A saudade rasgando. Na boca, no peito, na boca do estômago. Rasga de deixar fiapo. Eu senti, doeu. Sentei, escrevi. Você não veio na sexta. Era só mais uma sexta e eu ainda lembrava aquelas outras que a gente chegava a casa e se jogava na cama, meio sem jeito até se ajeitar. O quartinho, ele virava mais um e éramos três quando estávamos lá, configurava tempo-espaço de outra forma. Às vezes se apertava até a gente entrar um no outro, por outras se dilatava e eu te perdia de vista. Tinha os dias que o tempo não passava, a gente nem sentia fome, e os tantos outros que o relógio nos empurrava para fora d…