cem ou duzentos anos milhões sei lá nem parece que vale tanto e rachadura cristal quebrado é gozado como as coisas mudam assim de um minuto para o outro casa sujeira parece que não dá tempo para nada o tempo ali se configura de outra forma você escolhe como que as coisas vão se ajeitar rapaz eu poderia te amar para sempre se você deixasse isso muda também não é culpa sua tem sido assim comigo eu entendo essa sua mania de querer coisas novas todo ano mês eu entendo você procurar por alguma moça mais rasa rasinha ficar aqui embaixo comigo sufoca dá vontade é eu sei que você é o tipo do cara que precisa de ar puxar forte e mirar o horizonte aqui no meu apartamento tem muita parede móveis tem a cristaleira com o cristal que eu quebrei agora pouco e todos os outros que estão por um fio por um fio de ar para se partirem e tem essas construções e prédios pitorescos que fingem serem bons para morar ah já se foi o tempo deles vila isabel tem sido aprisionador e quente como o nosso último encontro eu não consigo mais ficar parada poderia correr para caralho na esteira na ladeira na bicicleta na água sim eu poderia e seria bom seria ficar mais perto entende será que você entende mesmo mesmo lembro daquele dia que você me fez suco de abacaxi com hortelã e nossa estava tão ruim é faltava muito para você ser bom bom de verdade no que você achava que era mas esse quase lá essa promessa que nunca se concretizaria nossa isso me enlouquecia eu queria mais mais assim como as suas costas perfeitas de cara que levanta peso contrastando com as suas pernas finas pedalando para o paraíso o vento batendo nas minha cara isso sim é não pensar em nada esperar é uma merda porque é uma hora vem sabe ficar nesse vão do tempo é tão ruim
aí me puxa puuuuuxa se contorce essas coisas bobas tolas todas elas vão sair ao mesmo tempo e não vai sobrar nada é não sobra nada foi sem querer foi
L L L
Lírica Lesa Louca (e muito bonitinha)
sábado, 24 de março de 2012
domingo, 11 de março de 2012
Guilherme e Juliana
"Eu quero saber o que você não conta para ninguém", Juliana pedia. Eu, cansado dos seus jogos intelectuais, muitas vezes inventava algo que julgava interessante para satisfazer sua insaciável curiosidade. "E se eu viajasse para longe? E se eu fosse embora? E se eu morresse?". Sua verborragia contrastava com o silêncio na hora do sexo. Sempre compenetrada deixava escapar alguns gemidos miúdos, quase inaudíveis não fosse a minha insistência em puxar seu pescoço e trazê-la perto. Ela se debatia, empurrava, mas acabava cedendo. E eu enlouquecia.
Aos sábados ela ficava viva. Esquecia a maquiagem, as roupas, até a depilação que nunca estava em dia. Dava umas risadas muito altas, almoçava sorvete, me olhava séria-zombeteira e começava a desfilar sua infindável enciclopédia de interrogações: " Podemos ir ao cinema esta noite? Me acha gorda? Vamos viajar no reveillón?"
Hoje ela está calada. Não posso dizer que o silêncio não me é agradável. Ela cozinha, sorumbática, de coque amarrado no alto da cabeça deixando uns poucos fios fazendo cócegas na nuca. Ela, às vezes, morde a pele do canto da unha, franze a testa como quem é invadida por pensamento ruim e mexe o molho de tomate com vigor. Que suja a borda da panela, o fogão, as ideias e até a cara dela. Ela não limpa. Esfrega os olhos com as costas da mão e eu vejo um pedaço da sua nádega branca, porque a blusa sobe e ela não usa roupa de baixo, ela nunca usou roupa de baixo no final de semana.
Acendo um cigarro e desejo que morra, suma, saia da minha frente e enfim me deixe em paz. Com ela tudo falta. Eu sou do tipo que só se completa sozinho. Ela estala os ossos do pescoço enquanto cozinha nosso último almoço.
Colocava o nariz atrás de sua orelha e puxava forte. "Cheiro é instante", eu dizia. Ele não entendia, talvez nunca tenha compreendido metade das coisas que dizia entender, um terço do que saía da sua boca e todo o meu olhar, mas fingia que sim e isso por hora bastava.
Tinha um pouco de dificuldade de esquecer todo o resto, "é que é melhor assim". Mas insistia, talvez mais do que ele quisesse e depois que eu enfim extasiava, vinha me beijar, abraçar. Eu respirando forte, tentando recuperar o ar, a boca quente molhada dele com o meu gosto e o que eu mais queria era que ele saísse de cima de mim. Como se aquele minuto sem fôlego fosse para ser vivido sozinho. Depois ele ia pro chuveiro e eu morria de frio e saudade. Pedia. Ele voltava com a pele lisa, gelada. Passava a mão na sua barba e o achava tão bonito. Nesse momento, conseguia enxergá-lo melhor, como se ficasse mais nítido, como se passasse nos olhos o efeito 'sharp' do Photoshop. Os olhos apertados, alguns fios da sobrancelha perdidos entre os olhos. Você é tão bonito, bonito. Eu nem tenho coragem para sentir, sentir tudo isso. Coloca a mão aqui, não, aqui. Eu não vou embora, não me deixa ir. Não dorme. Se você dormir eu vou, não dorme, por favor. Guilherme, eu gosto de dizer o seu nome no meu carioquês de erre arrastado. Guilherrrrrme, fica.
Ele fazia que não mas eu sabia, porque sou dessas que sabe, que ele ia. Cedo. Antes do que combinamos, antes de eu comer o resto do chocolate que ficou na sua geladeira, antes de eu lavar aquela calcinha que ele arrancou de olhos fechados e eu joguei no fundo da mochila. E ficou lá.
Aos sábados ela ficava viva. Esquecia a maquiagem, as roupas, até a depilação que nunca estava em dia. Dava umas risadas muito altas, almoçava sorvete, me olhava séria-zombeteira e começava a desfilar sua infindável enciclopédia de interrogações: " Podemos ir ao cinema esta noite? Me acha gorda? Vamos viajar no reveillón?"
Hoje ela está calada. Não posso dizer que o silêncio não me é agradável. Ela cozinha, sorumbática, de coque amarrado no alto da cabeça deixando uns poucos fios fazendo cócegas na nuca. Ela, às vezes, morde a pele do canto da unha, franze a testa como quem é invadida por pensamento ruim e mexe o molho de tomate com vigor. Que suja a borda da panela, o fogão, as ideias e até a cara dela. Ela não limpa. Esfrega os olhos com as costas da mão e eu vejo um pedaço da sua nádega branca, porque a blusa sobe e ela não usa roupa de baixo, ela nunca usou roupa de baixo no final de semana.
Acendo um cigarro e desejo que morra, suma, saia da minha frente e enfim me deixe em paz. Com ela tudo falta. Eu sou do tipo que só se completa sozinho. Ela estala os ossos do pescoço enquanto cozinha nosso último almoço.
Colocava o nariz atrás de sua orelha e puxava forte. "Cheiro é instante", eu dizia. Ele não entendia, talvez nunca tenha compreendido metade das coisas que dizia entender, um terço do que saía da sua boca e todo o meu olhar, mas fingia que sim e isso por hora bastava.
Tinha um pouco de dificuldade de esquecer todo o resto, "é que é melhor assim". Mas insistia, talvez mais do que ele quisesse e depois que eu enfim extasiava, vinha me beijar, abraçar. Eu respirando forte, tentando recuperar o ar, a boca quente molhada dele com o meu gosto e o que eu mais queria era que ele saísse de cima de mim. Como se aquele minuto sem fôlego fosse para ser vivido sozinho. Depois ele ia pro chuveiro e eu morria de frio e saudade. Pedia. Ele voltava com a pele lisa, gelada. Passava a mão na sua barba e o achava tão bonito. Nesse momento, conseguia enxergá-lo melhor, como se ficasse mais nítido, como se passasse nos olhos o efeito 'sharp' do Photoshop. Os olhos apertados, alguns fios da sobrancelha perdidos entre os olhos. Você é tão bonito, bonito. Eu nem tenho coragem para sentir, sentir tudo isso. Coloca a mão aqui, não, aqui. Eu não vou embora, não me deixa ir. Não dorme. Se você dormir eu vou, não dorme, por favor. Guilherme, eu gosto de dizer o seu nome no meu carioquês de erre arrastado. Guilherrrrrme, fica.
Ele fazia que não mas eu sabia, porque sou dessas que sabe, que ele ia. Cedo. Antes do que combinamos, antes de eu comer o resto do chocolate que ficou na sua geladeira, antes de eu lavar aquela calcinha que ele arrancou de olhos fechados e eu joguei no fundo da mochila. E ficou lá.
sábado, 3 de março de 2012
Cheiros de Infância
(texto de 2007)
Hoje é meu aniversário, embora ninguém saiba. Já vivi tantos dias que esta data não tem nada de especial. Daqui a pouco desço para o refeitório, café com leite e pão com manteiga. Um passeio no jardim mais tarde, quem sabe? Posso ouvir meu velho rádio (ele completa 20 anos comigo). Só o que posso fazer é esperar o amanhã, e assim tem sido desde que cheguei aqui. A melhor e única companhia têm sido minhas lembranças. Apesar das 89 primaveras, nunca perdi o dom de não esquecer de nada. Como uma máquina que ainda não inventaram, fecho os olhos e consigo viajar no tempo. Revejo o nascimento do meu primeiro filho, volto um pouco e jogo futebol na rua, ainda moleque. avanço e fito o reflexo do meu rosto jovem, nos olhos de jabuticaba de Elvira. Ontem, algo inusitado aconteceu. Os netos de D.Amélia vieram visitá-la. Enquanto a senhora beijava as crianças, estas se esquivavam para correr pelo pátio. A menininha tropeçou e caiu aos meus pés, soltando o saquinho de pão-de-mel que carregava. Agora, quem tinha os olhos marejados não era só a avó da pequena. Fui transportado para outro lugar, era bom. Me senti ansioso enquanto um sorriso reforçava as rugas do meu rosto. Aos poucos, um cenário se materializou à minha frente. Há quanto tempo não pensava em vovó, faz tanto que ela se foi. Até meus 9 anos, o acontecimento mais aguardado do ano, não era natal e muito menos dia de páscoa. Gostava mesmo era do meu aniversário. Sempre pela manhã, vovó Celina me levava à cozinha e preparava uma bandeja de pão-de-mel só para mim. Me contava histórias enquanto eu raspava o tacho, e depois, para meu deleite se completar, fazia uma jarra de suco de maracujá fresco. Nós dois comíamos e eu adorava. Ela nunca esqueceu uma data festiva, tinha o seu jeito de mostrar que cada um era especial. Era gordinha, risonha e quituteira de dar inveja. Desde ontem, não parei de pensar nela. Agora me recordo da última vez que a vi. Ela estava deitada no quarto, muito doente aguardava a morte chegar, assim como a espero hoje. Apertou meus dedos com suas mãozinhas enrugadas e me fez uma promessa: “Nós ainda vamos nos encontrar”. Confesso que naquela época passei algumas noites na janela, esperando por uma visita que nunca viria. Acordei com um sentimento estranho hoje, diferente de tudo que vivi. Ontem, antes de dormir, fiquei um longo tempo abraçado com D.Amélia, minha amiga e muito minha nos últimos anos, e hoje, não estou com vontade de sair do quarto. Sinto um aperto no peito e me deito; o meu coração já bateu tanto que anda falhando ultimamente. O aperto está cada vez mais forte. Durmo. Sinto cheiro de pão-de-mel, abro os olhos e vejo vovó Celina, ela veio cumprir sua promessa de tantos anos. Ela sorri, pega na minha mãe e neste instante eu sorrio também. Ela me conduz e caminhamos juntos.
terça-feira, 21 de fevereiro de 2012
Silêncio
"Agora só me falta aprender o silêncio". É do Zeca Baleiro. Eu gosto da voz dele, de piano e do seu cheiro. Gosto também de mudar a palavra aprender para apreender. Mais um ''e'' e tudo fica tão maior, avassalador. Arrebatador. Você usa essas palavras e eu, eu gosto tanto de você!
Silêncio e todo mundo sabe. Os poetas, os cantores de pagode, os cineastas. Que ilusão achar que pode se saber aquilo que a gente nem chega perto. Dormindo os meus sonhos gritam. Calada tento não balançar com o carnaval que rola aqui dentro. A respiração mexe, eu não fico em paz.
Eu jamais me cairia de você e mesmo assim tenho sentido tanto medo.
Silêncio, não conseguir mais escrever, ter a inspiração roubada. É quando você vai embora e eu começo a gritar. Pode ser branco, preto. O meu tem todas as cores de fevereiro, máscaras e um sol rachando na nuca, o meu silêncio tem me deixado bronzeada. Com gosto de chocolate, sorvete de flocos e brigadeiro. O meu silêncio é gordo. Tem olhos verdes e o beijo mais quente da lapa.
Um dia ele vira música, virá. Com violão cor de madeira meio desafinado, blusa de malha com um buraco debaixo do braço e textura de abraço de mãe.
É bom ter o silêncio que me mostra um mundão. Eu lembro do barulho que a gente faz ouvindo jazz, mudos. Parece que foi ontem e foi, foi ontem.
Silêncio e todo mundo sabe. Os poetas, os cantores de pagode, os cineastas. Que ilusão achar que pode se saber aquilo que a gente nem chega perto. Dormindo os meus sonhos gritam. Calada tento não balançar com o carnaval que rola aqui dentro. A respiração mexe, eu não fico em paz.
Eu jamais me cairia de você e mesmo assim tenho sentido tanto medo.
Silêncio, não conseguir mais escrever, ter a inspiração roubada. É quando você vai embora e eu começo a gritar. Pode ser branco, preto. O meu tem todas as cores de fevereiro, máscaras e um sol rachando na nuca, o meu silêncio tem me deixado bronzeada. Com gosto de chocolate, sorvete de flocos e brigadeiro. O meu silêncio é gordo. Tem olhos verdes e o beijo mais quente da lapa.Um dia ele vira música, virá. Com violão cor de madeira meio desafinado, blusa de malha com um buraco debaixo do braço e textura de abraço de mãe.
É bom ter o silêncio que me mostra um mundão. Eu lembro do barulho que a gente faz ouvindo jazz, mudos. Parece que foi ontem e foi, foi ontem.
segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012
branco
Ele me olhou fundo e eu senti vertigem. Tudo rodando em volta, uma náusea boa de sentir e os dois olhos castanhos empurrando. "He's a handsome guy". I know. Eu sentia muita culpa. Me desculpa? Por nunca mais ter conseguido ficar inteira, por não te deixar seguro um minuto sequer, por trepar de olhos fechados e não dizer o que anda engasgado na garganta desde a primeira vez que me enfiei naquele seu quartinho: "Faz amor comigo?"Eu viro de costas. Não só porque é delícia sentir a sua respiração esquentando a minha nuca mas também porque é uma forma de estar ali sem estar, entende? Ontem, antes de dormir no seu braço, fixei na parede branca que virou uma tela. Não era efeito do vinho branco fancy, eu sei, era efeito do que eu ando sendo mesmo. Eu via um menino andando de bicicleta, o cabelo liso no rosto, ele pedalando de um lado para outro atrás de uma orla linda e desabitada. Pedalava no ar. Não era bom. Mas não era bom. Ele tinha muito medo de cair. O cabelo esconderia um sorriso desafiador? Nessa onda foi que eu fui, pro branco do meu estático sonho sufocante, sempre o mesmo.
E tem o peso, que não demora. Corro para longe mesmo tendo me deixado ali inteira, nua, do avesso. Se eu tivesse a mesma facilidade para tirar as sombras como tenho para tirar a roupa...
Não entendo de arte, sempre tive preguiça de contemplar cores e formas e esperar que me toquem. Ou eu corro atrás e engulo o que vejo na frente ou é sem graça. E você veio cheio de cor. E eu tive que colocar meu rayban aviador.
sexta-feira, 25 de novembro de 2011
Vermelho
E eu administrando o fato de estar ligeiramente alcoolizada, magoada, com um tesão filho da puta, tentando parecer sexy e descontraída e lendo seus sinais. Não sabia se olhava nos seus olhos para ver quando você piscava rápido, dando pinta que estava mentindo, ou se relaxava e curtia a quentura da sua mão quando me apertava a coxa. Você contando uma porrada de história que eu já sabia, porque já tinha inventado para você, e eu tentando não alucinar com o seu cheiro e balançando o pé forte para conseguir ficar sem cigarro. Ás vezes você ria de alguma coisa que eu falava e eu pensava que a gente não estava junto e não conseguia imaginar porque não estávamos dividindo um apartamento no Flamengo sem vaga na garagem e com uma janela bem grande. O chopp morno depois da conta paga e eu bebendo devagar para não ir embora. Você comigo depois de tanto tempo longe e eu ainda morria de vontade de te arrancar a roupa, de te morder todo e também de te meter a mão no meio da cara, de te imobilizar com um triângulo bem dado e raspar esse seu rosto de barba feita no asfalto. Eu te amo. Eu te odeio. E eu te amo mais porque eu te odeio, e eu nunca amei e nem odiei ninguém assim. Você sabe. Eu não quero saber se você foi promovido, se o seu gato está ficando velho ou se a sua avó comprou um quadro caríssimo em um leilão e depois descobriu que era falso. Eu quero saber o que você não me conta, ainda pensa muito em mim? Eu ainda sou a garota que você ama? E odeia? E ama mais porque odeia? E você ainda tem vontade de me tirar o soutian sem tirar a blusa? E de me atirar pela janela para ter um pouco de paz? Por que a gente tem essa mania de se machucar?
O garçom levanta a cadeira das outras mesas e joga um balde com uma espuma escura no chão. É hora da gente ir. A porta da minha casa nunca foi tão grande: Entra aqui, rapaz! Como você fazia antigamente e eu nunca nem precisei chamar. Vamos ficar uns dois dias aqui dentro nos amando, nos odiando e nos amando ainda mais. Nos arranhando e lambendo e ardendo. E fazendo aquilo tudo que a gente fazia sabendo que ia se arrepender depois e sendo assim, curtindo ao máximo cada toque, cada palavra e cada dor também. Você mudou e me mostra:
- Olha, eu não te amo mais. Eu não vou entrar dessa vez, tá? É melhor assim.
Eu paro. Não estou acostumada a ouvir esse tipo de coisa assim, de graça, às 4 e 30 de um domingo nem quente nem frio e com uma vizinha insone espiando pela janela.
Esqueço de parecer sexy, do amor e do ódio que faz amar mais, dos machucados que ainda ardem, dos sorrisos e dos cheiros e digo:
- Então tá. Tô subindo.
E a gente se abraça e os nossos corpos lembram que se conhecem, e fazem tudo sozinhos. Eu não paro de pensar no estranhamento que eu sinto enquanto nossos corpos vão se encontrando, se provando. Eu só quero que você saia de perto de mim mas a minha barriga quer sentir a sua bem perto, indo e voltando. Acho que todo mundo é um pouco refém de si mesmo, até você com essa cabeça boa de quem não tem neura nenhuma. E eles, os corpos, suam, batem acelerado, fazem mil conexões e se esgotam também. Não sobra nada. Eu só quero que você vá embora.
Você se veste e bebe água. Eu quero que você vá embora.
Você conta alguma coisa e eu finjo achar graça, sai daqui, por favor, eu quero dormir.
Você enfim vai embora, e vem me dar um beijo para se desculpar por não me amar, por não me amar mas estar aqui, por não me amar mas ter acabado de me amar. E aí eu coloco o nariz no seu pescoço e puxo bem forte, e de novo, e não sinto cheiro nenhum.
Hora de acender um cigarro e fazer a lista do mercado...É, eu também não te amo mais.
sexta-feira, 30 de setembro de 2011
Final de verão tem dessas coisas
"Teve um dia que você foi meu. Eu sabia que era, você achava que era e eu tive muito medo disso. Nós dois sentados no tapete, com o sol do final de verão deitado do nosso lado e o silêncio das crianças brincando longe. Você me deu a mão, me encostou na parede e me abraçou. E disse que era meu, naquele dia pelo menos, eu sabia que era. As minhas pernas foram ficando fracas e eu sentei no chão para disfarçar. Você é meu, agora, mesmo com as outras moças por aí, com a minha falta de romantismo e com o meu band-aid descolando do calcanhar, você é meu. O que eu faço com você agora? Pensei que poderia deixá-lo dentro do meu armário, eu te tiraria de lá quando precisasse muito de uns dos seus versos fáceis que me faziam entender o mundo e seus tons de cinza. Depois imaginei que você não ia gostar de ficar preso no armário e não poder ver as coisas por aí, você estava tirando a minha calça com aquela sua delicadeza como se não quisesse amassar as roupas e eu estava pensando aonde ia enfiar você. Onde colocar, você era muito grande para eu deixar dentro de uma bolsa, para eu guardar no cofre do banco que nunca tive ou para deixar no porta-luvas do carro. Eu ainda lembro da calça jeans de um lado, a blusa preta do outro e das nossas roupas caindo do corpo e se amontoando pela sala. Você era meu, as roupas decoravam a sala que nunca viu um sofá, o tapete segurava o verão mais um pouco e eu não conseguia parar de pensar no que eu iria fazer com você. Que merda, você é meu! E justo agora que eu não tenho lugar para guardar ninguém. E aí eu olhei de novo, para ter certeza, para o meio das minhas pernas e você estava lá, e eu te beijei e você tinha o meu gosto e sim, você era meu. Aí eu contei até cinco, coloquei a roupa muito depressa e saí correndo de lá.
Faz mais de um ano , talvez mais de dois, eu não sei se você é de alguém agora, mas eu andei jogando muita coisa fora e tem um espaço enorme aqui, vazio vazio."
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