Pular para o conteúdo principal

Postagens

Silêncio

"Agora só me falta aprender o silêncio". É do Zeca Baleiro. Eu gosto da voz dele, de piano e do seu cheiro. Gosto também de mudar a palavra aprender para apreender. Mais um ''e'' e tudo fica tão maior, avassalador. Arrebatador. Você usa essas palavras e eu, eu gosto tanto de você! Silêncio e todo mundo sabe. Os poetas, os cantores de pagode, os cineastas. Que ilusão achar que pode se saber aquilo que a gente nem chega perto. Dormindo os meus sonhos gritam. Calada tento não balançar com o carnaval que rola aqui dentro. A respiração mexe, eu não fico em paz. Eu jamais me cairia de você e mesmo assim tenho sentido tanto medo. Silêncio, não conseguir mais escrever, ter a inspiração roubada. É quando você vai embora e eu começo a gritar. Pode ser branco, preto. O meu tem todas as cores de fevereiro, máscaras e um sol rachando na nuca, o meu silêncio tem me deixado bronzeada. Com gosto de chocolate, sorvete de flocos e brigadeiro. O meu silêncio é gordo. Tem olho...

branco

Ele me olhou fundo e eu senti vertigem. Tudo rodando em volta, uma náusea boa de sentir e os dois olhos castanhos empurrando. "He's a handsome guy". I know. Eu sentia muita culpa. Me desculpa? Por nunca mais ter conseguido ficar inteira, por não te deixar seguro um minuto sequer, por trepar de olhos fechados e não dizer o que anda engasgado na garganta desde a primeira vez que me enfiei naquele seu quartinho: "Faz amor comigo?" Eu viro de costas. Não só porque é delícia sentir a sua respiração esquentando a minha nuca mas também porque é uma forma de estar ali sem estar, entende? Ontem, antes de dormir no seu braço, fixei na parede branca que virou uma tela. Não era efeito do vinho branco fancy, eu sei, era efeito do que eu ando sendo mesmo. Eu via um menino andando de bicicleta, o cabelo liso no rosto, ele pedalando de um lado para outro atrás de uma orla linda e desabitada. Pedalava no ar. Não era bom. Mas não era bom. Ele tinha muito medo de cair. O cabelo e...

Vermelho

E eu administrando o fato de estar ligeiramente alcoolizada, magoada, com um tesão filho da puta, tentando parecer sexy e descontraída e lendo seus sinais. Não sabia se olhava nos seus olhos para ver quando você piscava rápido, dando pinta que estava mentindo, ou se relaxava e curtia a quentura da sua mão quando me apertava a coxa. Você contando uma porrada de história que eu já sabia, porque já tinha inventado para você, e eu tentando não alucinar com o seu cheiro e balançando o pé forte para conseguir ficar sem cigarro. Ás vezes você ria de alguma coisa que eu falava e eu pensava que a gente não estava junto e não conseguia imaginar porque não estávamos dividindo um apartamento no Flamengo sem vaga na garagem e com uma janela bem grande. O chopp morno depois da conta paga e eu bebendo devagar para não ir embora. Você comigo depois de tanto tempo longe e eu ainda morria de vontade de te arrancar a roupa, de te morder todo e também de te meter a mão no meio da cara, de te imobilizar co...

Final de verão tem dessas coisas

"Teve um dia que você foi meu. Eu sabia que era, você achava que era e eu tive muito medo disso. Nós dois sentados no tapete, com o sol do final de verão deitado do nosso lado e o silêncio das crianças brincando longe. Você me deu a mão, me encostou na parede e me abraçou. E disse que era meu, naquele dia pelo menos, eu sabia que era. As minhas pernas foram ficando fracas e eu sentei no chão para disfarçar. Você é meu, agora, mesmo com as outras moças por aí, com a minha falta de romantismo e com o meu band-aid descolando do calcanhar, você é meu. O que eu faço com você agora? Pensei que poderia deixá-lo dentro do meu armário, eu te tiraria de lá quando precisasse muito de uns dos seus versos fáceis que me faziam entender o mundo e seus tons de cinza. Depois imaginei que você não ia gostar de ficar preso no armário e não poder ver as coisas por aí, você estava tirando a minha calça com aquela sua delicadeza como se não quisesse amassar as roupas e eu estava pensando aonde ia enfia...

Qualquer coisa de sorriso e língua

Ele tinha um sorriso de quilômetros que ia de um lado a outro do rosto. Eu beijaria cada cantinho daquele sorriso branco de gente, não branco de clareamento de laser, branco amarelo cor de dente de gente, lindo, dele. Eu beijaria o bigode, a barba, olhando perto, sem fechar os olhos e torcendo para ele não fechar também. Verde escuro e eu mais perto, quase encostando apertando o nariz com força contra. Verde escuro e a gente se apertando na Bolívia, em Cuba, tipo Colômbia ou em Corumbá. A latino-américa é nossa, meu bem, estar aqui é como estar lá também. Emaranhada nessas línguas que de longe parecem uma só, eu poderia te entender mais fácil se você não tivesse preguiça de se explicar e de colocar mais a língua também, sua, nossa. Ele está sentado do outro lado da sala, nós dois esperamos. Penso no nome dele, que nome eles têm? Jose, Pablo, Alejandro, Andres... Penso que poderíamos sair por aí de motocicleta, de ônibus, correndo. Ele poderia me levar para esquiar e eu ia adorar levá-...

O cineasta

Acho que eu fui a primeira pessoa que ele viu assim que chegou. E ele foi um dos muitos caras que eu vi naquele dia, naquele lugar. Eu já estava quase indo embora até porque deviam ser umas três horas brincando e eu já tinha superado uma crise de pânico de maneira muito heróica. Pois é, não tomo remédio e chego nos lugares procurando onde tem vento, onde é perto da saída, onde tem um segurança grandalhão e delicado o suficiente para me carregar no colo caso eu tenha uma dessas crises que me tiram de mim por alguns segundos. Só que começou a tocar Chico Buarque, que eu chamo de Chico, e eu consegui ludibriar essa minha loucura porque remédio bom é homem e se for de olhos ardósia e lindo, mesmo que em verso, mesmo que em música faz muito bem, obrigada. E aí ele chegou, depois que metade do pessoal já tinha ido embora e até a minha vaidade porque o cabelo já estava bagunçado e foda-se, tá todo mundo bêbado mesmo. Na hora que eu vi pensei que ele era muito bonito para estar ali, sozi...

Jogo da Vida

...Eu não sei se o Lucas notou  a calcinha dela e em outra ocasião eu a faria sentar igual moça de família perto do meu homem, só que passava das três e ela era muito legal para levar pito meu.O Renato arrumou o tabuleiro, cada um escolheu um carrinho de uma cor. Viramos pinos coloridos e rodamos aquela roleta umas vinte vezes cada um. No meio de um assunto esquecíamos o que havíamos tirado e tínhamos que começar tudo de novo. Renato fazia o papel do banco mas acabava por distribuir mais dinheiro do que conquistávamos, exceto para Lucas que lutava com umas promissórias adquiridas logo na primeira rodada. Acabamos o jogo quando o dia fica mais frio, entre quatro e cinco da manhã. Eu ganhei, claro, eu sei mais da vida que os três juntos, mesmo com a arrogância do meu marido e com o frescor dessa menina. Elegi os dois rapazes para lavarem a louça e eles foram rindo, fumando um e falando de futebol para a cozinha. Fiquei ali com aquela garota, de pele lisa e coxa depilada, c...