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Final de verão tem dessas coisas

"Teve um dia que você foi meu. Eu sabia que era, você achava que era e eu tive muito medo disso. Nós dois sentados no tapete, com o sol do final de verão deitado do nosso lado e o silêncio das crianças brincando longe. Você me deu a mão, me encostou na parede e me abraçou. E disse que era meu, naquele dia pelo menos, eu sabia que era. As minhas pernas foram ficando fracas e eu sentei no chão para disfarçar. Você é meu, agora, mesmo com as outras moças por aí, com a minha falta de romantismo e com o meu band-aid descolando do calcanhar, você é meu. O que eu faço com você agora? Pensei que poderia deixá-lo dentro do meu armário, eu te tiraria de lá quando precisasse muito de uns dos seus versos fáceis que me faziam entender o mundo e seus tons de cinza. Depois imaginei que você não ia gostar de ficar preso no armário e não poder ver as coisas por aí, você estava tirando a minha calça com aquela sua delicadeza como se não quisesse amassar as roupas e eu estava pensando aonde ia enfia...

Qualquer coisa de sorriso e língua

Ele tinha um sorriso de quilômetros que ia de um lado a outro do rosto. Eu beijaria cada cantinho daquele sorriso branco de gente, não branco de clareamento de laser, branco amarelo cor de dente de gente, lindo, dele. Eu beijaria o bigode, a barba, olhando perto, sem fechar os olhos e torcendo para ele não fechar também. Verde escuro e eu mais perto, quase encostando apertando o nariz com força contra. Verde escuro e a gente se apertando na Bolívia, em Cuba, tipo Colômbia ou em Corumbá. A latino-américa é nossa, meu bem, estar aqui é como estar lá também. Emaranhada nessas línguas que de longe parecem uma só, eu poderia te entender mais fácil se você não tivesse preguiça de se explicar e de colocar mais a língua também, sua, nossa. Ele está sentado do outro lado da sala, nós dois esperamos. Penso no nome dele, que nome eles têm? Jose, Pablo, Alejandro, Andres... Penso que poderíamos sair por aí de motocicleta, de ônibus, correndo. Ele poderia me levar para esquiar e eu ia adorar levá-...

O cineasta

Acho que eu fui a primeira pessoa que ele viu assim que chegou. E ele foi um dos muitos caras que eu vi naquele dia, naquele lugar. Eu já estava quase indo embora até porque deviam ser umas três horas brincando e eu já tinha superado uma crise de pânico de maneira muito heróica. Pois é, não tomo remédio e chego nos lugares procurando onde tem vento, onde é perto da saída, onde tem um segurança grandalhão e delicado o suficiente para me carregar no colo caso eu tenha uma dessas crises que me tiram de mim por alguns segundos. Só que começou a tocar Chico Buarque, que eu chamo de Chico, e eu consegui ludibriar essa minha loucura porque remédio bom é homem e se for de olhos ardósia e lindo, mesmo que em verso, mesmo que em música faz muito bem, obrigada. E aí ele chegou, depois que metade do pessoal já tinha ido embora e até a minha vaidade porque o cabelo já estava bagunçado e foda-se, tá todo mundo bêbado mesmo. Na hora que eu vi pensei que ele era muito bonito para estar ali, sozi...

Jogo da Vida

...Eu não sei se o Lucas notou  a calcinha dela e em outra ocasião eu a faria sentar igual moça de família perto do meu homem, só que passava das três e ela era muito legal para levar pito meu.O Renato arrumou o tabuleiro, cada um escolheu um carrinho de uma cor. Viramos pinos coloridos e rodamos aquela roleta umas vinte vezes cada um. No meio de um assunto esquecíamos o que havíamos tirado e tínhamos que começar tudo de novo. Renato fazia o papel do banco mas acabava por distribuir mais dinheiro do que conquistávamos, exceto para Lucas que lutava com umas promissórias adquiridas logo na primeira rodada. Acabamos o jogo quando o dia fica mais frio, entre quatro e cinco da manhã. Eu ganhei, claro, eu sei mais da vida que os três juntos, mesmo com a arrogância do meu marido e com o frescor dessa menina. Elegi os dois rapazes para lavarem a louça e eles foram rindo, fumando um e falando de futebol para a cozinha. Fiquei ali com aquela garota, de pele lisa e coxa depilada, c...

Para ler Nietzsche

1- Aprender a escrever o nome dele sem precisar recorrer a correção do Google; 2- Nunca mais ler alguma pílula de sabedoria, qualquer que seja. Frases desgarradas dos seus textos são burras, sempre burras; 3- Esquecer que você leu e assistiu "Quando Nietzsche chorou"; 4- Esquecer das superficiais aulas de filosofia da faculdade; 5- Perder o medo da solidão e da loucura; 6- Deixar a preguiça e lançar mão do primeiro livro, sem pular etapas, o primeiro; 7- Não se deixar impressionar pelos estudiosos, achar um caminho próprio de entendimento mesmo que seja necessário ler as mesmas palavras 14 vezes; 8 - Não comentar sobre sua descoberta com ninguém; 9- Não aplicar ao seu quotidiano o que vier com ele, é perigoso; 10- Não se apaixonar durante a imersão nietzschiana. Por homem, ideal, droga, cachorro, sitcom ou o que quer que seja.  

A Outra

Três e pouca da manhã e eu pensando no que a cartomante me dissera mais cedo:  - Ele tem outra.  Ele tem outra e daí? Eu tenho outros, com s no final. E as perguntas todas que eu havia feito para ela antes, fingindo que me importava com a saúde da família e com a carreira profissional, parecendo miss em concurso de beleza, toda àquela parafernália esotérica que comprei para parecer que estava interessada no assunto, e todos os amigos que convenci falando sobre a tal cultura milenar e o dom de vidência, enfim, toda a ladainha que me obriguei acreditar eram só para perguntar a condição sine qua non na qual os meus dias se baseiam:  -Ele tem outra? - Ele tem outra.    E o coração começou a incomodar embaixo da blusa, a lateral do meu rosto coçando, foi me dando um medo. Levantei, paguei, uma lágrima escorreu no meio do rosto e eu senti vontade de vomitar. Sim, tem alguém deitando no peito dele e ganhando os beijos quentes nas bochechas geladas pela manhã. Senti vo...

Rodar, rodar

Não sei se foi a primeira vez que aquilo aconteceu mas sem dúvida é quando me recordo sendo a primeira vez. O ano era de dois mil e alguma coisa e eu estava prestando vestibular. Estava sentada em uma sala de faculdade na tijuca, única vez na minha vida que a UFF e a tijuca estiveram no mesmo lugar. Lá para o meio da manhã e metade do exame, saí daquele mundo de números, cartão de resposta, geografia e redação e fui levada para um outro lugar por alguém que até então só fazia o que eu mandava: o tal do pensamento. E se eu enlouquecesse? E se fosse agora? E se eu me levantasse agora e começasse a rodar, rodar? Todos iam olhar para mim, o fiscal da prova ia me segurar mas ninguém ia conseguir me deter, eu só ia rodar, rodar, até que iam perceber que eu enlouqueci mesmo. Veriam nos meus olhos de loucura que eu não estava ali assim de verdade, mas o meu pensamento que agora mandava no corpo todo estaria me fazendo rodar, rodar.. Em algum momento veriam que eu estaria refém dele e do meu pr...